View Full Version: Antropofagia entre os Tupinambás

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Title: Antropofagia entre os Tupinambás
Description: O Bom Canibal


lordephobos - August 24, 2005 07:58 AM (GMT)
Estou a fazer uma pesquisa histórica sobre os índios Tupinambá que dominavam o litoral brasileiro desde antes da chegada dos portugueses até o início do século XVII, quando os europeus conseguiram expulsarem-nos para o interior num processo que continua até hoje, e envolveu uma verdadeiras cenas de barbárie e assassinatos em massa.

Quando 99,9% das pessoas pensa em índios brasileiros está, mesmo sem saber, a pensar nos Tupinambá. Mesmo que hoje em dia eles não existam mais, como já disse, foram extremamente influentes sobre o modo de vida dos brasileiros e até mesmo dos portugueses. Tomar banho mais de uma vez por dia, comer farofa, descansar naquela rede estratégicamente pendurada na sua varanda e até mesmo ir à churrascaria comer uma picanha assada na brasa são costumes que herdamos dos Tupinambá.

Os dois grupos tupinambá mais conhecidos são os Tamoio, alidados dos franceses e ferrenhos inimigos dos portugueses, a quem chamavam peró, e os Tupiniquim que eram aliados dos portugueses e inimigos jurados dos seus algozes já citados anteriormente.Mesmo antes da chegada dos europeus estes dois grupos já vivam em constantes guerras entre si, guerras cujo principal objectivo não era a conquista mas sim a vingança. Vingança contra aqueles que foram mortos em outras guerras e principalmente a vingança por aqueles que foram capturados e devorados pelo inimigo.

A antropofagia entre os índios era sempre ritualística, nunca de forma abrupta. Quando eles iam à guerra seu principal objectivo era capturar os inimigos e não matá-los. Além da questão da vingança, os prisioneiros que iriam ser devorados serviam para muitas outras coisas.

No meio social Tupinambá não havia reis nem chefes supremos, os líderes eram realmente líderes, ou seja, governavam pelo seu carisma e pela aceitação social. Os prisioneiros eram normalmente dados de presentes a outros para formalecer laços e criar alianças, o que aumentava a influência daquele que dava o presente e permitia-o subir na escala para tornar-se um morubixaba, ou seja, um dos líderes.

Além disso o guerreiro era considerado pelo número de nomes que possuía. Cada vez que matava um prisioneiro para ser devorado, ganhava um novo nome. Quanto mais nomes tinha o guerreiro mais poderoso ele era. O conceito de antropofagismo estava tão arraigado na cultura Ttupinambá que tais nomes não eram concedidos aos inimigos que eram mortos na guerra, mas sim na aldeia, depois de capturados, para que fossem devorados.

O prisioneiro não era tratado como escravo no sentido em que nós o pensamos, mas sim "integrado" a aldeia como se fosse um dos seus. Normalmente o mesmo passava por um período de
"engorda" que podia durar mais de um ano, sendo lhe dado esposa - que muitas vezes chegava a engravidar e ter filhos - e um espaço na oca - como eram chamadas as casas dos Ttupinambá - para viver com ela. O prisioneiro chegava até mesmo a trabalhar de boa vontade nas roças dos seus captores.

Ele não era mantido sob vigilância e raríssimas vezes tentava fugir. Alguns historiadores e antropólogos sustentam que se o prisioneiro fugisse e voltasse para sua aldeia seus próprios camaradas o matariam por não ter tido coragem de suportar com coragem a morte de um guerreiro mas eu pessoalmente acredito, com base naquilo que estudei, que isto é claramente um exagero.

Para os guerreiros ser devorado era um fim muitíssimo honrado. Tal como os vikings do norte europeu eles acreditavam que um guerreiro devia ter um fim digno de seus feitos, morrendo ainda com todo o seu poder na guerra ou devorado, de forma que sua força continuasse viva dentro daqueles que o comeram.

Um guerreiro não desejava morrer velho e era por isso que ele aceitava de bom grado a morte que teria sendo devorado. Isto é um facto muitíssimo interessante pois, mesmo com este desejo, os velhos eram extremamente respeitados dentro de uma Taba - o nome pelo qual os índios chamavam as aldeias - e suas opiniões sempre ouvidas antes de se tomarem decisões.

Vou ficar por aqui para o tópico não ficar muito extenso. Depois vou postar em detalhes a forma como os Tupinambás realizavam os rituais de antropofagia propriamente ditos.




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